O cheiro do orvalho já começava a se dissipar, o vento frio da manha já estaria em outro lugar, um campo de belos lírios enchiam meu olho de ternura. Eram quase dez da manha quando aquele velho senhor veio até mim.
Confesso a vocês que não estava disposto a prestar atenção em tal homem, o silencio da minha mente era bom demais, mas em meus versos, assim como na vida real, as vezes temos algum impertinente atrapalhando alguns bons momentos.
- Posso me sentar garoto?
Antes mesmo de que eu pudesse acenar com a cabeça, o velho já estava sentado ao meu lado, observei a bela cena por mais alguns instantes...
Eu tinha passado a noite toda esperando para ver o sol da manha batendo nesse campo, mas esse velho impertinente viria atrapalhar minha concentração, mas para dizer a verdade, eu já o esperava.
- O que procuras? - Disse o velho em um tom nada agradável.
- Paz? - Respondi em um tom menos agradável ainda.
- E como alguém que mata, mesmo que apenas em versos, acha que pode alcançar a paz?
- Depende no que você acredita, em algumas culturas a morte é libertadora.
- ...mas na minha não - O coitado agora tentava ser sarcástico.
- Felizmente amigo, este não é o meu caso.
Começo a caminhar por entre os lírios, o sol já estava a queimar minha pálida pele, ao andar entre os lírios o pouco de orvalho que ainda resta nas flores passam para meu corpo e me refrescam. Chego em uma majestosa macieira, apanho o fruto proibido, me sento recostando minhas costas no tronco gelado, dou uma bela mordida na maçã, seu gosto é tão doce, que faz lembrar-me de um beijo que outrora fora roubado de mim.
- O profanador se alimentando do fruto proibido.
- Ainda está aí meu bom senhor, não poderia respeitar meu raro momento de descontração?
- Então daí que vem sua maligna inspiração! - acompanhando a infame afirmação o velho me presenteia com um belo sorriso, deixando-me ver os dentes que ele não tem.
- Argh é por isso que sua conversa é podre.
- Criança, em toda minha longa vida, em toda minha vasta experiência, nunca vi alguém tão patético quanto você.
- Essa vasta experiência e essa longa vida que você diz ter, só me mostram que você morrerá primeiro, velho!
Ao termino da deliciosa fruta, empenho-me a atirar seu fruto o mais longe possível, quem sabe um filho meu não coma uma bela maça de uma árvore que veio da semente que hoje atiro ao mundo...
Abaixo minha boina tampando o sol que machucava meus olhos, dou uma espreguiçada, um bocejo escapa da minha boca, e mais uma vez quase esqueço que o velho está lá, para me pentelhar.
- Olhe para mim quando falo com você - empurrando minha boina para o alto.
- Antes de pedir meu respeito, velho, tenha o bom senso de deixar os outros descansar em paz.
- ...mas essa não é a hora de descansar meu filho, o mundo está um caos, a fome, a tristeza e você só pensa em dormir...
Depois disso não me lembro ao certo, tudo se transforma em um 'blá blá blá', até que eu pego no sono.
Algumas horas se passam, até que uma maçã podre cai em meio aos meus pés e eu desperto, incrivelmente o velho, perdido em seu inflado ego ainda está a discursar.
- ...e é por isso que você deveria...
- Velho, me diga uma vez por todas onde você deseja chegar com tudo isso? - Pergunto eu quase que indignado.
- Eu? Faze-lo acordar de que tudo que está errado, de o que você está fazendo em sua vida é...
- Ah sim, e você no alto da sua prepotência acredita que eu não sou capaz de julgar o que é certo e errado na minha vida? Só por você ter valores diferentes de mim?
Rindo, o velho agacha, pega a maça e lhe da uma mordida. Agora finalmente estamos cara-a-cara, seu bafo horrendo quase me cega, vejo horror em seus olhos, seu rosto agora parece-me familiar, por alguns momentos chego a achar que falo com o Diabo, mas não.
- Criança, você não deve ser assim, não deve expressar coisas ruins, não deve viver a sua vida como vive, só por gostar... - diz o velho perdendo a paciência.
- Talvez você ainda não tenha entendido uma coisa velho, não importa quem você seja, não importa o que seja, não me faz diferença alguma a sua opinião.
- Há! - grita o maldito impertinente - Estás a perder a compostura, mas logo perceberá que estou certo, quando tiveres idade suficientes, quando você entender Deus.
- Há? - um riso quase incontrolável toma conta de meus lábios e me impedem de continuar a frase.
- Olha só, alem de um jovem vagabundo, com a ilusão de ser alguém é um impertinente!
É nessa hora que reconheço o desgraçado que me atrapalha. Então calmamente digo:
- Velho, até agora não tinha notado quem é você, mas agora já sei.
- É, e quem sou? A voz da verdade?
- Da sua verdade pode ser, mas a questão é que você, velho, é meu meu lado porco, sujo e imbecil, o pouco que sobrou da cultura que infelizmente é imposta a todos nós, mas agora, reconheci sua verdadeira face. Você velho, é o pedaço de mim que acabo por matar em algum verso aqui e ali, e gostaria até de ter te encontrado antes para agradece-lo! Sim agradece-lo, pois te matar em versos faz com que te mate dentro de mim, logo você não desaparecera da minha realidade, e será lembrado apenas nos versos que sobrarem.
Até então a face do velho perambulava apenas entre risos sarcásticos e um certo horror por me ver, mas agora, pela primeira vez, vi surpresa e medo em sua face.
- ...mas então meu velho, alem de algo podre em mim, posso dizer que você também é todo aquele que um dia me deu opiniões impertinentes, todo aquele que um dia desejou que eu não fosse quem sou, todo aquele que sente inveja e medo de me ver no que me tornei, VOCÊ meu caro a(ini)migo, é até mesmo o leitor que agora se pergunta o quão presunçoso eu sou, pois até ele não deixei de fora, até ele estou a atacar. O que importa meu velho, é que graças a você alguém ou algo geralmente vai morrer em meus versos, você é a minha inspiração, vê agora quem é o nojento? Agora relaxe, hoje ninguém vai morrer, pois deixarei que você vivo com a vergonha que agora lhe causei, pois outrora você infelizmente não me deixou ter a paz que eu procurava, então te farei beber do mesmo veneno, e quem sabe ele te mate, mas isso não me fará ser mais feliz ou triste, mas quem sabe assim, terei minha tão sonhada paz, cada vez mais longe de sua ignorância.